Tem um ar no mercado de que a telefonia fixa está com os dias contados. A ideia faz sentido se você olhar só para a linha de cobre que tocava na casa da sua avó — essa, sim, está sendo desligada. Mas confundir o fim do cobre com o fim da voz é o erro que vai fazer muito provedor perder dinheiro.
O que está morrendo — e o que não está
Em 2025, o acordo firmado no TCU selou o fim das concessões de telefonia fixa: Oi e Vivo passam a poder desativar a rede de cobre. Isso é o "fim da telefonia fixa" que vira manchete. Só que desligar o cobre não apaga a necessidade de falar — apenas transfere o serviço para quem souber entregá-lo sobre IP.
A voz não desaparece. Ela troca de meio — do cobre para o IP — e troca de dono: do incumbente para o provedor regional.
Tanto que a interconexão fixa segue economicamente relevante mesmo com a queda do STFC tradicional. O encanamento continua lá; muda quem cobra pela água.
Quem assume o cliente que as gigantes deixam
Esse vácuo cai no colo de um grupo específico — e provavelmente é o seu. Os provedores regionais não são coadjuvantes: são a maior força da banda larga no Brasil.
Repare: não se trata de conquistar um cliente novo. Trata-se de vender mais para a base que você já tem. Cada assinante de internet é um candidato natural a telefonia e PABX — e o desligamento do cobre só acelera essa migração. Em especial nos municípios menores da área de concessão da Oi, onde o cliente vai ficar sem alternativa de voz da operadora histórica.
Por que a voz não vai a lugar nenhum
- A lei obriga. A Lei do SAC exige canal telefônico de atendimento — empresa nenhuma de porte abre mão de um número.
- O B2B demanda. Call centers, cobrança, telemedicina, varejo e órgãos públicos vivem de voz. PABX corporativo e 0800 não têm substituto à altura.
- A regulação investe. Ninguém cria STIR/SHAKEN (atestação anti-fraude), portabilidade e DETRAF para um produto moribundo. Pelo contrário: são sinais de um mercado que vale a pena proteger.
- O mercado se formaliza. O número de operadoras na Anatel chegou a cerca de 18,8 mil com a revisão das outorgas — a voz competitiva está se organizando, não desaparecendo.
O que muda para o seu discurso
A lição prática é de posicionamento: pare de vender "telefonia fixa" — o termo carrega o estigma do cobre. Venda receita de voz e comunicação IP. O produto é o mesmo número de telefone que sempre existiu, entregue por uma infraestrutura moderna (softswitch, SIP, multi-tenant) que fica mais inteligente a cada ano: URA com IA, autenticação de chamada, integração total com a sua operação.
Quem comprar a narrativa de que "a fixa acabou" vai sair do jogo e deixar a mesa posta. Quem enxergar além vai abocanhar a receita de voz que as concessionárias estão, literalmente, desligando.
Fontes: Anatel — Pequenas operadoras na banda larga fixa (2T2025); Anatel — Relatório de Competição 3T2025; Anatel — Balanço 2025.
